PROJETO ALIMENTAR E ESTUDAR PARA TRANSFORMAR

 CM - ANGOLA - 4

 PROJETO ALIMENTAR E ESTUDAR PARA TRANSFORMAR

 

Saudações Vicentinas

 

A comunidade missionária é formada por dois membros: 1 Nicaraguense e 01 Brasileiro(eu). É uma comunidade bem heterogenia devido à idade, personalidade, cultura, etc., porém com muitos valores positivos e que juntos assumem os desafios da missão segundo o projeto comunitário e pastoral.

A casa da missão é modesta e relativamente nova construída em 2005, pois a antiga casa da missão se tornou residência das irmãs durante a guerra e que a missão ficou sem padre residente. Só temos energia elétrica das 18 ás 22hs, que é produzida por um gerador a óleo diesel. Quando chove muito ou dá alguma pane no gerador é só esperar a energia elétrica para o próximo dia. Nos primeiros dias é difícil, mas com o passar do tempo vai tornando-se normal. Mais ou menos 98% das casas do distrito de Lombe não têm energia elétrica. No país somente 33% da população tem energia elétrica. Não temos cozinheira e nos revezamos para preparar as refeições e cuidar da casa. Contamos com uma funcionária dois dias por semana para lavar a roupa e organizar um pouco melhor a cozinha. Graças a Deus, ao subsidio que a Congregação nos envia mensalmente e alguma colaboração da comunidade não nos falta nada. Só temos um carro e uma moto de 03 rodas com uma pequena carreta adquirida através de parte da coleta missionária de outubro de 2014 pela paróquia Santa Cândida.

Estivemos na época da seca (cacimbo). A ultima chuva tinha vindo no final do mês de abril e só voltou a chover agora no mês de outubro. É o fenômeno de todos os anos. A realidade é 98% rural e as pessoas vivem daquilo que produzem: milho, amendoim e, sobretudo a mandioca que é o alimento principal e praticamente faz parte em todas as refeições e também é o produto de venda.

A sede da missão é formada por 05 aldeias unidas e mais 05 setores pastorais com 50 comunidades cristãs. Em 39 delas existe uma capela construída de abobe (blocos fabricados de barro e capim) em estilo e do mesmo material das casas do povo. A língua oficial é o português e a língua nativa é o Kimbundo, (grande parte dos mais novos não sabe a língua nativa). Nas comunidades o povo não vive espalhado em propriedades, mas em aldeias, e a roça é um pouco distante da aldeia. Algumas só se têm acesso nesta época de chuva, outras só no tempo de seca. Mais de 50% destas comunidades não tem um catequista ou um animador. A grande dificuldade em encontrar e formar lideranças é o fato do analfabetismo que atinge 90% da população adulta. Segundo a tradição do povo, ser catequista é uma função do homem. Durante os 27 anos de guerra civil (desde a independência 1975 a 2002) praticamente toda a população rural ficou sem estudar, ai entendemos a alta porcentagem de adultos analfabetos.

A educação é precária, vamos encontrar crianças na quarta ou quinta série que ainda não sabem ler ou escrever. Outro fator é a má preparação de professores e o pouco empenho dos mesmos. Pelo fato de não existir escolas de ensino médio nos distritos e no interior, muitos dos adolescentes e jovens (a maioria masculina) vão para as cidades viver na casa de familiares para poder estudar. Na educação também há muita corrupção por parte de diretores e professores tanto no ensino médio quanto nas faculdades.

Na pastoral o grande desafio é: como formar se a maioria dos fiéis adultos é analfabeta?

Nos 05 setores pastorais da missão temos a alfabetização de adultos que é dirigida por um professor catequista. O maior desafio é a perseverança dos alunos que em geral são mulheres e que desiste facilmente devido o sobrepeso de atividades que a mulher carrega no dia a dia.

O encontro nas comunidades acontece em forma de rodízio de segunda a sábado as 6:30 hs da manhã, pois é o horário que a comunidade costuma se reunir, depois vão para as lavras (roça). Enquanto um dos padres fica na sede da missão os outros dois vão para duas comunidades que estejam próximas, aproveitando o mesmo veículo. Na visita celebramos a missa ou damos formação ao grupo de catequese de adultos, visitamos os doentes, fazemos alguma reunião, conversamos com o povo, etc. Na sede da missão temos mais grupos e se pode fazer um trabalho de maior acompanhamento.

A Missão Católica de Lombe também mantém uma escola com 780 alunos que vai desde a pré-escola até a 9ª classe. A diretora da escola é uma Irmã religiosa e os professores são pagos pelo governo. Os alunos são provenientes dos 05 aldeias de Lombe e aldeias vizinhos, alguns caminham até 07 Kilómetros para estudar. A realidade dos alunos é de pobreza. No entanto, os mais pequenos são os que mais padecem, pois na maioria das vezes os pais saem muito cedo para a roça, deixando os filhos sozinhos em casa. Muitas vezes, as crianças vão para a escola sem ter feito nenhuma refeição. Já presenciei situações onde a criança mais velha tem 07 anos de idade e fica cuidando dos irmãos menores. Tudo isso acarreta ausência nas aulas, distração e a dificuldade na aprendizagem.

No momento estamos fazendo uma campanha para construir um muro no terreno da missão e aproveitar parte do terreno para organizar um pomar e uma horta que beneficiará a escola e os alunos. A terra aqui é muito produtiva no tempo das chuvas. A campanha tem envolvido os fiéis da missão e os alunos da escola. Já iniciamos a construção de parte do muro, porém com oque foi arrecadado até o momento nos permite construir uma parte do mesmo.

Com a construção do muro aproveitaremos o terreno que no momento está ocioso devido à falta de uma vedação servindo como lixeira e para a passagem dos transeuntes das aldeias anexas e pastagem das cabras e porcos que são criados soltos. Com a organização do pomar e da horta será possível oferecer parte da merenda escolar aos alunos (batata doce; mandioca; milho verde, legumes para sopa, etc., principalmente aos mais pequenos.

A realidade é de grande pobreza material, porém, uma grande riqueza na fé e na cultura que é transmitida através da música, da dança e das tradições. Além da evangelização procuramos dar formação humana e dicas de saúde. A mortalidade infantil ainda é alta, em média de 50%. Na medida do possível também auxiliamos as comunidades com o transporte de alguns doentes até o posto de saúde de Lombe e hospital de Malanje, com algum medicamento e alguma outra ajuda.

Diante da realidade acima citada oque nos move é a fé e a esperança na certeza de ser como uma “pequena gotinha num grande oceano” e poder colaborar e ao mesmo tempo aprender com o povo que sempre tem muito a nos ensinar.

Resumidamente é uma pequena partilha daquilo que tenho vivenciado neste pouco tempo em Angola. No caminho da mudança de estruturas e diante de nossos trabalhos e necessidades solicitamos o vosso auxilio naquilo que estiver ao vosso alcance. Se por ventura pudermos contar com vossa colaboração que nos auxiliará e ajudará na concretização do nosso projeto que beneficiará aqueles que mais necessitam.

No momento estamos lançando uma campanha intitulada: AMIGOS DA MISSÃO ALÉM fronteira

“Adote uma criança” à distancia para nos ajudar a proporciona-las a merenda escolar e assim juntos promovermos a pessoa na sua totalidade, material, espiritual e social.

Em anexo envio algumas fotos das crianças da escola.

Desde já agradeço pela vossa atenção, amizade e cooperação na Família Vicentina.

Unidos na oração, amizade e Missão.          

Fraternalmente

Pe. Marcos Gumieiro,CM