ENTRE NÓS - O Consolador - 20 de maio de 2018

O Consolador

 

Era ainda o primeiro dia da semana quando o Cristo estigmatizado lhes ofereceu a paz. O Mestre ferido, agora ressuscitado, reconforta a comunidade, soprando sobre ela, também ferida pela traição e pelo desencanto, e confere-lhe a responsabilidade de ser a promotora da reconciliação entre os homens e dos homens com Deus.

O Espírito Santo, o Sopro de Vida, é apresentado como o Paráclito, isto é, o consolador. Ele não é uma energia ou algo de vago. É Alguém, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que acompanhou o Filho de Deus e, como tal, num novo capítulo da história, acompanha também cada filho, consola-o para que ele se torne consolador dos marginalizados pelo mundo.

Com efeito, a descida do Espírito Santo tem um efeito simplesmente disruptivo na vida dos discípulos. A comunidade, atrofiada pelo medo, surge agora no espaço público com um novo rosto e uma missão bem definida: ser protagonista da paz, a consoladora dos muitos feridos.

É espantoso verificar alguns exemplos do efeito Consolador do Espírito Santo na longa história da espiritualidade cristã. Ângela de Foligno, por exemplo, no termo de uma peregrinação a Assis, junto à porta da Basílica, pôs-se a gritar como uma louca: «Amor desconhecido, porque me abandonas… porquê, porquê?». Ângela era uma pobre viúva que tinha perdido os filhos e, naquele momento, como confessara mais tarde, «era consolada pelo Espírito Santo de um modo que nunca tinha experimentado». Decorria o ano de 1291. O frade que antes se envergonhava dela e a ameaçara de que não a trazia mais em peregrinações a Assis, ouviu atónito o relato consolador do Espírito Santo. Ângela, a analfabeta de Foligno, havia de se destacar como uma das grandes místicas da época medieval.

O Cardeal J. Newman dizia numas das suas alocuções ao povo: «Instruídos pelo nosso próprio sofrimento, pela nossa própria dor, ou melhor, pelos nossos próprios pecados, teremos a mente e o coração treinados para qualquer obra de amor em relação àqueles que dela necessitarem. Seremos, à medida da nossa capacidade, consoladores à imagem do Paráclito, e sê-lo-emos em todos os sentidos que esta palavra comporta: advogados, assistentes, portadores de conforto».

Num mundo cheio de violência é urgente encontrar discípulos disponíveis para curar, enxugar as lágrimas, defender e consolar. Que belo desafio nos é feito em cada celebração do Pentecostes.

Pe. Nélio Pita, CM