ENTRE NÓS - No fim dos tempos - 23 de julho de 2017

No fim dos tempos

 

Uma das imagens que ainda conservo da infância é a da atividade da ciranda. Assim se chamava à estrutura retangular de quatro braços, em geral feita de madeira, cujo fundo era uma rede metálica. Era uma espécie de grande peneira na qual depositavam a areia vinda do mar, transportada às costas em sacos, pelas veredas ingremes e estreitas da Madeira. Dois homens, um de cada lado, movimentavam-na regularmente para separar a areia fina do cascalho ou outros materiais. Só depois de devidamente serandada a areia era misturada com o cimento e água, num jogo por vezes bastante exigente fisicamente, para logo revestir as paredes de uma nova construção.

No fim dos tempos seremos também cirandados? A parábola do trigo e do joio sugere-nos que sim. Apenas nesse dia, nesse lugar, diante do misericordioso juiz seremos sacudidos na divina ciranda antes de entrar na comunhão dos santos. Neste tempo, no nosso lugar, todas as vezes que o homem, na sua loucura, por razões politicas, religiosas, culturais ou… antecipa este julgamento assumindo as rédeas do juiz supremo, senhor da vida dos outros, fomenta a desgraça e a morte. Um exemplo claro foi o fanatismo do nacional-socialismo que, na Alemanha Nazi, engendrou uma diabólica ciranda na qual, segundo os critérios do führer, milhões de pessoas inocentes foram tidas como joio e, por isso, queimadas em camaras de gás. Mas não precisamos de ir tão longe: conceber a Igreja como sociedade perfeita e santa é filtrar os membros segundo os critérios do mundo, uma distorção que deixa de fora os desconfigurados pelo pecado, os pobres, os sem voz, os dalit de todos os tempos e lugares. E em mim, em nós, há também uma impiedosa ciranda que não se detém em selecionar o que convém. Só a partir de Deus, em comunhão com Ele, podemos superar a natural tendência para julgar. E é neste tempo do Reino de Deus ainda imperfeito, «nesse já, mas ainda não totalmente concluído», que amadurecemos pacientemente porque suportamos o joio dos outros ao mesmo tempo em que integramos conscientemente o nosso. Grande desafio!

 

Pe. Nélio Pita, CM