ENTRE NÓS - No espelho da verdade - 4 de novembro de 2018

No espelho da verdade

«Facebook, meu querido facebook, há alguém mais amado do que eu?», assim podia começar a história. A pergunta repetia-se logo ao despertar, pela manhã, a meio da manhã, enquanto tomava um chá para emagrecer, ao almoço e pouco depois, na sesta, no intervalo do lanche, enquanto comia lentamente umas bolachas integrais sem açúcar, ao anoitecer, e em certos dias, pela noite dentro. «Querido facebook, diz-me a verdade, há alguém com mais qualidades do que eu?» Um dia, ela estava tão concentrada a consultar as respostas dos fãs e a apreciar a concorrência quando perdeu o pé e deslizou para o oceano das imagens que avançavam rapidamente, cujas temáticas se intercalavam, sem qualquer conexão, entre figuras humanas idealizadas com animais muito engraçados, produtos para uma limpeza rápida, e até umas receitas para a felicidade em poucos passos. Teve ainda tempo de soltar um grito enquanto levava as mãos à cabeça – duvidou se seria a sua cabeça – enquanto era engolida pela corrente de fragmentos de informação e de imagens variadas.

A energia afetiva que nos obriga a sair de nós mesmos para procurar o rosto de Deus e para nos relacionarmos com os outros pode, de facto, sofrer diversas vicissitudes como, por exemplo, ser sugada pelas necessidades de um ego carente e eternamente insatisfeito. A dependência do espelho das redes sociais que, como é sabido, distorce a realidade, para se alimentar narcisicamente é um sintoma de uma perturbação: o sujeito não está disponível para estabelecer uma reação sólida e madura com terceiros, através da via poderosa do amor. Vive angustiado com as possíveis virtudes que o tornam merecedor do amor dos outros, precisa de um constante “like” para estar em paz.

No coração do universo religioso de matriz cristã está o mandamento do amor desdobrado numa dupla direção – amor a Deus e ao próximo. É em torno deste eixo fundamental que se configura a identidade do discípulo cujo Mestre é um modelo perfeito de docilidade amorosa para com Deus e, simultaneamente, de entrega e serviço incondicional à humanidade, em especial, a que se encontra ferida e desencaminhada. Neste sentido, a experiência espiritual profunda é transformadora, liberta-nos da escravatura de um ego sedento, rompe com o ciclo vicioso na medida em que estimula o crente a aproximar-se de Deus, fonte de amor para com os outros.

Deus é a única paixão, uma paixão que nos dispõe afetivamente para servir os outros.

Pe. Nélio Pita, CM