ENTRE NÓS - Entre o Sim e Não - 01 de Outubro 2017

Entre sim e não

 

Em cada sim esconde-se a ameaça de uma negação e, por vezes, na convicção de um não persiste a promessa do consentimento. É difícil ser inteiro. Agir em conformidade: palavra e ação. Em casos extremos, podemos até assumir um tipo de personalidade que alguns psicólogos denominam «como se». Representamos papéis, agimos «como se» apenas para agradar a terceiros, como mecanismo de defesa, porque a nossa verdade é percecionada como algo inaceitável socialmente. E temos medo da reprovação alheia. De tanto representar, a personalidade «como se» cristaliza e torna-se um modo de funcionamento recorrente. Tornamo-nos numa infeliz contradição.

A singela parábola dos dois filhos do Evangelho deste domingo denuncia a inconsistência das nossas convicções. Sim eu vou, sim eu acredito, sim sou católico, sim andei na catequese, sim, sim… e as ações?

Esta semana, no dia 27, a Igreja celebrou a festa de S. Vicente de Paulo, o patrono das obras de caridade na Igreja, alguém que já no século XVII denunciava o comportamento ambíguo dos homens aparentemente devotos, aqueles que «davam ares» de fervor religioso mas, ao mesmo tempo, nutriam uma escandalosa indiferença pelo sofrimento dos pobres. «Amemos a Deus, meus irmãos, amemos a Deus, mas que isto seja à custa dos nossos braços, que isto seja com o suor dos nossos rostos», repetia.

Nos nossos dias, a interpelação continua a ser válida: somos marcados pela contradição entre o que se diz e o que se faz, uma realidade a que não nos devemos habituar. Estes são os dias em que se multiplicam “mesas de negociações” estéreis, em que se repetem promessas ilusórias, notícias falsas, propaganda enganosa, imagens de uma felicidade barata. É neste hoje que a proposta cristã se insere.

É certo que sempre foi assim: apesar da palavra ser divina, ela encarna na minha humanidade tantas vezes frágil e inconstante e, por isso, há sempre uma margem de incoerência. Hoje, com tantos modelos alternativos de “eternidade”, com a agressiva promoção de propostas de realização pessoal e profissional que se assemelham a um seguro de vida, podemos ceder à tentação de cruzar os braços e repetir como natural e habitual o que deveria ser motivo de indignação. «Eu acredito à minha maneira», ouvimos dizer, tantas vezes como conclusão deste processo de conformação.

Urge, portanto, dar consistência às palavras de fé que recorrentemente repetimos. Para que a linguagem recupere a força que apenas uma vida coerente nos garante. Para que, em cada um dos nossos gestos, persista a marca da autenticidade que como batizados, somos chamados a testemunhar.

 

 

P. Nélio Pita, CM